{"id":88,"date":"2023-08-21T11:00:00","date_gmt":"2023-08-21T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/demosites.royal-elementor-addons.com\/personal-blog-v3\/?p=88"},"modified":"2024-07-10T15:37:24","modified_gmt":"2024-07-10T18:37:24","slug":"reflecting-on-the-blessings-in-my-life","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/2023\/08\/21\/reflecting-on-the-blessings-in-my-life\/","title":{"rendered":"Tunga: Um pouco al\u00e9m do espanto"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"88\" class=\"elementor elementor-88\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-b3f66c7 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no\" data-id=\"b3f66c7\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-777704fe\" data-id=\"777704fe\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-46d210ae elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"46d210ae\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n<p class=\"text\">\u00c9 preciso formular a quest\u00e3o primitiva: por que nos pomos de p\u00e9? N\u00e3o \u00e9 o que nos distingue dos outros mam\u00edferos? Uma energia transformada em desejo e vontade nos p\u00f4s de p\u00e9; n\u00e3o nos submetemos \u00e0 lei da gravidade. Muitas das esculturas de Tunga se assemelham a n\u00f3s mesmos, se p\u00f5em de p\u00e9 por uma energia interior. Os im\u00e3s fragmentados constituem um campo de energia e juntos instauram um corpo. L\u00e2minas de a\u00e7o ou bengalas s\u00e3o v\u00e9rtebras em torno dos quais se constituem o corpo da obra. \u00c0s vezes atravessadas pelas tran\u00e7as, a tenta\u00e7\u00e3o de ir mais longe, bem longe, no entrela\u00e7amento das formas cont\u00ednuas, que n\u00e3o fazem mais que evidenciar a possibilidade infinita do corpo magn\u00e9tico contido nos fragmentos agregados pela sua energia interior. Como infinitos seriam o crescimento dos cabelos. Uma poesia que repousa num campo muito tenso de atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o. Nem as tran\u00e7as, nem os pentes, s\u00e3o coadjuvantes dessa est\u00f3ria, s\u00e3o protagonistas. E quem se ergue, muito al\u00e9m da met\u00e1fora do corpo, \u00e9 a massa po\u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"text\">Tunga \u00e9 como um tecel\u00e3o, construindo um bel\u00edssimo e infind\u00e1vel tapete: sua obra, que nunca estar\u00e1 conclu\u00edda, \u00e9 constitu\u00edda de diversas linhas que se entrela\u00e7am e se emaranham, tal como no conceito de entrela\u00e7amento qu\u00e2ntico, no qual o estado qu\u00e2ntico de dois objetos, s\u00f3 podem ser descritos globalmente, sem separar um objeto do outro, mesmo que estejam separados espacialmente. Este tecel\u00e3o, a quem os conceitos de linha e de cont\u00ednuo s\u00e3o t\u00e3o caros, n\u00e3o trabalha com linhas materiais. Engana-se quem v\u00ea a linha cont\u00ednua dos desenhos como um atrativo pl\u00e1stico. Aquilo \u00e9 a isca que, ao nos fisgar, nos prende no anzol da sedu\u00e7\u00e3o, na sua inexor\u00e1vel beleza, t\u00e3o inteligente e atual. Corpos que se separam, se unem, e se reencontram nas genit\u00e1lias. Bem antes do desenho; antes de tudo, o artista tece com linhas de ideias da psican\u00e1lise, da f\u00edsica, da matem\u00e1tica e da filosofia; seu tapete se deixa banhar e tingir pela filosofia, pela literatura e pela poesia.<\/p>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-b79c5cc elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"b79c5cc\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"528\" height=\"344\" src=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/f340d3be568b_tunga02_venus.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-1014\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/f340d3be568b_tunga02_venus.jpg 528w, https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/f340d3be568b_tunga02_venus-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Tunga, V\u00ea-nus, 1976 Foto Doug Baz, 1997 [Bard College Museum of New York\/Website Tunga]<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-ee58f20 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"ee58f20\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Uma linha, por exemplo, aquela da teoria do sujeito, a ilus\u00e3o que somos inteiros, que nos separamos de nosso corpo fr\u00e1gil e feito aos peda\u00e7os, que enche de j\u00fabilo e vai habitar nosso imagin\u00e1rio, quando, com alguns meses de idade, somos colocados diante de um espelho, \u00e9 desmantelada nesse tapete de verdades art\u00edsticas, e \u00e9 costurada nos diversos fragmentos e segmentos de que somos feitos, antes e depois da ilus\u00e3o imagin\u00e1ria da unidade. Como esta linha vem sendo explorada desde a d\u00e9cada de 1970 por Tunga? Lembram-se de <i>V\u00ea-nus<\/i>, 1976? Sobre uma superf\u00edcie de borracha foi dada uma perversa dentada. Aquele que mordeu n\u00e3o tinha ou havia perdido todos os dentes da arcada superior; seus dentes arredondados da arcada inferior deixaram sua marca. A escultura n\u00e3o deixa restos como os m\u00e1rmores de Leonardo ou Michelangelo; os restos s\u00e3o partes da obra e, nesse sentido, tem muito mais da totalidade que as representa\u00e7\u00f5es totalizadoras da figura humana. A coisa mordida \u00e9 a escultura bem como o que restou da carne de borracha. O resto, n\u00e3o \u00e9 o resto, \u00e9 parte integrada pelas articula\u00e7\u00f5es de fios, grampos e pela luz incandescente que os unificam numa sombra. Est\u00e1 l\u00e1, na parede. O inteiro, a totalidade, a borracha presa e amarrada na parede \u00e0s suas partes, e iluminada pelos fios que descem dela mesmo, suas luzes e \u2013 n\u00e3o esque\u00e7amos \u2013 as sombras. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 uma V\u00eanus de nosso tempo?<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-298c0c3 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"298c0c3\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" width=\"528\" height=\"416\" src=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/5edbce83544f_tunga03_lezard.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-1008\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/5edbce83544f_tunga03_lezard.jpg 528w, https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/5edbce83544f_tunga03_lezard-300x236.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Tunga, L\u00e9zard, 1989 Foto James Prinz [Contemporary Art Museum of Chicago\/Website Tunga]<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-3fb2b09 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"3fb2b09\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p class=\"text\">Se nos determos em <i>L\u00e9zard<\/i>, 1989, apresentado pela primeira vez no mesmo ano, no Museum of Contemporary Art \/ Chicago e, no ano seguinte, na Whitechapel, em Londres, hoje, presente em Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais, Brasil, veremos todas essas quest\u00f5es postas em a\u00e7\u00e3o, e mais uma, o narcisismo. N\u00e3o aquele secund\u00e1rio, psic\u00f3tico, que investe toda sua libido no ego, e nada resta para o objeto. Aqui estamos diante de um corpo que exercita o narcisismo prim\u00e1rio, aquele que todo dia nos ergue, nos, levanta, e nos prepara para um novo dia, esse monstro vivo, como foi chamado pelo cr\u00edtico Joseph Williams (1), em 1990, \u00e9 nosso retrato atual, com suas placas de a\u00e7o, seus im\u00e3s, suas tran\u00e7as, cabelos e pentes. \u00c9 nosso esqueleto nas placas met\u00e1licas, nosso sangue s\u00f3lido no magnetismo agregador, nossa imagem e, sobretudo, n\u00e3o pensem que os pentes n\u00e3o fazem parte de nosso corpo. O que seria de n\u00f3s, todo dia, sem os pentes, que separa e d\u00e1 individualidade aos fios de nossos cabelos? E o que \u00e9 o pente, sen\u00e3o a coisa que separa o coletivo, para restituir o indiv\u00edduo? E s\u00e3o tantos os pentes, mas milhares de mais os cabelos que juntos, s\u00e3o cabeleira, belos cabelos, mas constitu\u00eddos fios a fios, indiv\u00edduos juntos s\u00e3o um corpo lindo; separados, t\u00eam outra beleza, eles se juntam e o pente os separa. S\u00e3o sempre o uno e a totalidade em bel\u00edssimas esculturas. E o cabelo, como as unhas, s\u00e3o as \u00fanicas coisas vis\u00edveis em nosso corpo que tendem para o infinito, at\u00e9 \u00e0 morte, e mesmo depois n\u00e3o cessam de crescer, por algum tempo.<\/p>\n<p class=\"text\">Mas a esse imenso cont\u00ednuo no tempo, constru\u00eddo por fragmentos, peda\u00e7os, figuras, antecedeu uma interessante investiga\u00e7\u00e3o que culmina na explora\u00e7\u00e3o do cont\u00ednuo na figura da superf\u00edcie topol\u00f3gica do toro.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-9c19d68 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"9c19d68\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" width=\"520\" height=\"528\" src=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/573286f866e2_tunga04_palpebra.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-1011\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/573286f866e2_tunga04_palpebra.jpg 520w, https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/573286f866e2_tunga04_palpebra-295x300.jpg 295w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Tunga, \u201cP\u00e1lpebras\u201d, Galeria C\u00e2ndido Mendes, 1979 Foto divulga\u00e7\u00e3o [Website Tunga]<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-5d69018 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"5d69018\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Antes, em 1979, na exposi\u00e7\u00e3o <i>P\u00e1lpebras<\/i> (pe\u00e7o desculpas pela longa descri\u00e7\u00e3o, mas poucos viram a exposi\u00e7\u00e3o), no Centro Cultural Candido Mendes, ainda no antigo pr\u00e9dio do cinema Pax (hoje, n\u00e3o mais existente), em Ipanema, Tunga explorou o espa\u00e7o de uma ampla sala para coloc\u00e1-la na extrema penumbra. Mas para acess\u00e1-la, passava-se por um corredor que estava coberto por uma esp\u00e9cie de papel de parede que s\u00f3 reproduzia moscas, milhares de moscas impressas pretas sobre branco at\u00e9 a porta de vidro, antes de entrar no espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o; na verdade, j\u00e1 est\u00e1vamos na exposi\u00e7\u00e3o. Ali estavam expostos extremos que se encontram, o negro e o albino, placas negras de borracha, afastadas uma da outra, submetidas ao extremo da percep\u00e7\u00e3o: o ultravioleta e o infravermelho, as luzes escondidas atr\u00e1s das placas de borracha, que se acomodavam, como podiam, sobre a parede, deixando esparramar as luzes para os lados e suas bordas sobre o ch\u00e3o. A obra tinha um tempo lento, muito lento. Contrariava toda a frui\u00e7\u00e3o apressada da obra de arte. O seu tempo j\u00e1 era um \u00edndice de revolta contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o generalizada de todas as rela\u00e7\u00f5es sociais naquele momento, e especialmente o que logo veria a ser na arte, quando, mais tarde iria ocorrer sua inser\u00e7\u00e3o definitiva na ind\u00fastria do entretenimento. Na parede oposta \u00e0s placas de borracha havia uma placa de chumbo sobre a qual estava uma caixa de m\u00fasica que repetia indefinidamente \u201cSmoke gets in your eyes\u201d. Essa caixa de m\u00fasica desenrolava e enrolava um fio que atravessava a sala sobre o teto, por alguns quatro metros, at\u00e9 alcan\u00e7ar, no espa\u00e7o entre as placas de borracha, uma asa de mosca pousada sobre uma comutador de luz. No extremo do fio que atravessava a sala havia uma aranha fundida em prata que ao pousar sobre a asa da mosca modificava toda a ilumina\u00e7\u00e3o da sala ao comutar para a l\u00e2mpada incandescente que, ent\u00e3o, iluminava a sala. Pense no tempo das nossas p\u00e1lpebras, comutando a todo instante \u00e0 luz do reflexo, e pense no tempo da frui\u00e7\u00e3o, do desenrolar de todo o fio durante horas enquanto voc\u00ea n\u00e3o para de escutar essa frase \u201cSmoke gets in your eyes\u201d. Havia a formid\u00e1vel comuta\u00e7\u00e3o do negro, do inseto \u2013 as moscas \u2013 at\u00e9 o aracn\u00eddeo: a aranha. Atores org\u00e2nicos de uma cena digna de Beckett.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7a607db elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"7a607db\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"426\" height=\"528\" src=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/6cf3fc6bf522_tunga05_tacape.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-1009\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/6cf3fc6bf522_tunga05_tacape.jpg 426w, https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/6cf3fc6bf522_tunga05_tacape-242x300.jpg 242w\" sizes=\"(max-width: 426px) 100vw, 426px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Tunga, \u201cTacape\u201d, Galeria C\u00e2ndido Mendes, 1986 Foto Larry Lamay, 2002 [Luhring Augustine Gallery of New York\/Website Tunga]<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-64f9baa elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"64f9baa\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>A figura do toro fornece uma outra continuidade, esta n\u00e3o \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o, o cont\u00ednuo da figura do toro remove, a interrup\u00e7\u00e3o e a retomada, a figura \u00e9 absolutamente cont\u00ednua. A figura de um toro \u00e9 aquela de uma c\u00e2mera de ar cheia (sem o pino, \u00e9 claro). Para a geometria euclidiana o toro \u00e9 o s\u00f3lido absoluto. O toro \u00e9 a figura gerada pela revolu\u00e7\u00e3o de um c\u00edrculo num eixo coplanar com o mesmo c\u00edrculo, mas, para a topologia a quest\u00e3o \u00e9 mais complexa. E Tunga estava a par de tudo isso, quando come\u00e7ou a explorar na escultura essas quest\u00f5es. Realizou o toro em diversas dimens\u00f5es e, tamb\u00e9m o seccionou, interrompendo seu reinado. O toro, para a topologia, \u00e9 a figura homeomorfa ao produto cartesiano de dois c\u00edrculos id\u00eanticos, e o \u00faltimo \u00e9 tomado como a defini\u00e7\u00e3o neste contexto. A exposi\u00e7\u00e3o dessas quest\u00f5es matem\u00e1ticas seria cansativa aqui. Vamos ao que interessa, Tunga n\u00e3o apenas materializou o toro escultoricamente, o seccionou, como viaja no seu interior.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-95c594e elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"95c594e\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"528\" height=\"344\" src=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/d251263396b6_tunga06_ao.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-1012\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/d251263396b6_tunga06_ao.jpg 528w, https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/d251263396b6_tunga06_ao-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Tunga, \u00c3o, 1981 Website Tunga [Agnut Studio]<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e762e48 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"e762e48\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p class=\"text\"><i>\u00c3o<\/i>, 1981, apresentado pela primeira vez no Centro Cultural Candido Mendes, j\u00e1 em sua nova galeria da rua Joana Ang\u00e9lica, em Ipanema, em 1981, \u00e9 uma intermin\u00e1vel viagem no interior de um toro. S\u00e3o muitas as intelig\u00eancias tecidas nessa obra, \u00e9 muito dif\u00edcil escolher uma para come\u00e7ar, vamos pelas mais \u00f3bvias. O artista escolheu uma se\u00e7\u00e3o em curva de um conhecido t\u00fanel do Rio de Janeiro. Filma esta se\u00e7\u00e3o em curva do t\u00fanel, com a performance de Murilo Salles na c\u00e2mera e na fotografia, e a reproduz de forma a constituir o interior de um toro, um t\u00fanel sem entrada nem sa\u00edda; uma c\u00e2mera subjetiva est\u00e1 em vigor. Uma se\u00e7\u00e3o \u00fanica da m\u00fasica, na voz de Frank Sinatra se repete: \u201cNight and day, day and night\u201d. Nunca antes, acredito, ningu\u00e9m teve a sensa\u00e7\u00e3o de estar no interior de um toro, mesmo que n\u00e3o soubesse o que \u00e9 um toro. N\u00e3o h\u00e1 como entrar ou sair dali do que vemos; mas no espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o Tunga n\u00e3o cessa de provocar a intelig\u00eancia do espectador: o <i>loop <\/i>\u00e9 materializado, n\u00e3o se restringe ao projetor e algumas pequenas voltas do filme. O toro nos envolve, somos levados \u00e0 viagem infinita e nos vemos envolvidos materialmente por ele, pelo filme que percorre o per\u00edmetro da sala na sua eterna e infind\u00e1vel performance: o cont\u00ednuo infind\u00e1vel. O espectador fica no interior do duplo t\u00fanel: o que v\u00ea e o que o percorre. \u00c9 evidente uma dimens\u00e3o maior, digamos, hermen\u00eautica, uma dimens\u00e3o interpretativa e existencial. Existe sa\u00edda, uma vez que existimos?<\/p>\n<p class=\"text\">N\u00e3o podemos deixar de ceder \u00e0 exig\u00eancia da reflex\u00e3o: a obra \u00e9 conhecimento, denso, exigente. N\u00e3o transige com o dever do pensar sobre o pensar em nenhum momento ao longo de seu desenvolvimento ao longo de d\u00e9cadas. Vejamos os cristais mais recentes, que \u00e0s vezes convivem com os im\u00e3s.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-dbdfcc8 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"dbdfcc8\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"528\" height=\"352\" src=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/e9cff04fdbe6_tunga07_inhotim.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-1013\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/e9cff04fdbe6_tunga07_inhotim.jpg 528w, https:\/\/liartecontemporanea.com\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/e9cff04fdbe6_tunga07_inhotim-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 528px) 100vw, 528px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Tunga, segundo pavilh\u00e3o do artista em Inhotim Foto Helena Guerra, 2012<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-cf61969 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"cf61969\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p class=\"text\">\u00c9 \u00f3bvio que as tradi\u00e7\u00f5es est\u00e3o presentes, tanto as remotas, como o barroco, como a recente, a construtiva, sobretudo em seus desdobramentos posteriores nas obras de Lygia Clark e H\u00e9lio Oiticica. Mas essa evid\u00eancia n\u00e3o deve nos abstrair de uma coisa que se apresenta pela primeira vez na arte. Tunga \u00e9 um escultor que esculpe de dentro para fora, quando todos esculpem de fora para dentro. \u00c9 como se a escultura existisse antes de aparecer. O pensamento \u00e9 t\u00e3o forte que quando nos encontramos com o resultado ele transborda: ficam evidentes as ideias que o mant\u00e9m. A obra de Tunga exclui toda alteridade etnogr\u00e1fica, nenhuma cultura o cont\u00e9m por inteiro apesar de eventuais refer\u00eancias locais: os tacapes, a rede-de-dormir, o tipiti. Tunga s\u00f3 \u00e9 um artista brasileiro, porque realiza sua obra aqui, no Brasil. Sua po\u00e9tica, sempre, depois de tantos anos, ousou ser universal: pertence a um chin\u00eas, americano, brasileiro, congol\u00eas, ingl\u00eas ou, at\u00e9, argentino. Porque foi feita aos peda\u00e7os do qual s\u00e3o feitos todos n\u00f3s. Este o tapete que temos diante de n\u00f3s, n\u00e3o pertence a ningu\u00e9m porque pertence a todos que se encontram com a arte. E temos a sorte de encontra-lo, aos peda\u00e7os, aqui e ali, como em Inhotim. Este o nosso grande tecel\u00e3o de ideias. E, sorte maior, sermos seu contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p class=\"text\">Rio de Janeiro, junho de 2014 \/ abril de 2016.<\/p>\n<p class=\"item-one\"><b>notas<\/b><\/p>\n<p class=\"note_text\">NA \u2013 O presente texto, originalmente escrito em junho de 2014, foi modificado e estendido em abril de 2016.\u00a0Permanecia in\u00e9dito at\u00e9 sua publica\u00e7\u00e3o no facebook devido ao falecimento, no dia 6 de junho de 2016, aos 64 anos de idade, do brasileiro Antonio Jos\u00e9 de Barros Carvalho e Mello Mour\u00e3o, o Tunga. Um dos maiores artistas contempor\u00e2neos, \u00e9 uma perda enorme para seus familiares, para seus amigos e sobretudo para o mundo da arte.<\/p>\n<p class=\"note_text\" style=\"text-align: left;\">1.\u00a0Ver: WILLIAMS, Joseph. The humour of reptilian art. In: &lt;<a href=\"http:\/\/www.tungaoficial.com.br\/pt\/exposicao\/exposicao-individual-new-gallery-audiovisual-rooms-whitechapel-gallery-londres-reino-unido\">www.tungaoficial.com.br\/pt\/exposicao\/exposicao-individual-new-gallery-audiovisual-rooms-whitechapel-gallery-londres-reino-unido<\/a>&gt;.<\/p>\n<p class=\"item-one\"><b>sobre o autor<\/b><\/p>\n<p class=\"note_text\">Paulo Sergio Duarte \u00e9 cr\u00edtico, professor de hist\u00f3ria da arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados \/ Cesap da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro. Leciona Teoria e Hist\u00f3ria da Arte na Escola de Artes Visuais do Rio de Janeiro \u2013 Parque Lage.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-66eac0e elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"66eac0e\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Texto originalmente publicado em: https:\/\/vitruvius.com.br\/revistas\/read\/arquitextos\/16.192\/6065<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso formular a quest\u00e3o primitiva: por que nos pomos de p\u00e9? N\u00e3o \u00e9 o que nos distingue dos outros mam\u00edferos? Uma energia transformada em desejo e vontade nos p\u00f4s de p\u00e9; n\u00e3o nos submetemos \u00e0 lei da gravidade. Muitas das esculturas de Tunga se assemelham a n\u00f3s mesmos, se p\u00f5em de p\u00e9 por uma energia interior. Os im\u00e3s fragmentados constituem um campo de energia e juntos instauram um corpo. L\u00e2minas de a\u00e7o ou bengalas s\u00e3o v\u00e9rtebras em torno dos quais se constituem o corpo da obra. \u00c0s vezes atravessadas pelas tran\u00e7as, a tenta\u00e7\u00e3o de ir mais longe, bem longe, no entrela\u00e7amento das formas cont\u00ednuas, que n\u00e3o fazem mais que evidenciar a possibilidade infinita do corpo magn\u00e9tico contido nos fragmentos agregados pela sua energia interior. Como infinitos seriam o crescimento dos cabelos. Uma poesia que repousa num campo muito tenso de atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o. Nem as tran\u00e7as, nem os pentes, s\u00e3o coadjuvantes dessa est\u00f3ria, s\u00e3o protagonistas. E quem se ergue, muito al\u00e9m da met\u00e1fora do corpo, \u00e9 a massa po\u00e9tica. Tunga \u00e9 como um tecel\u00e3o, construindo um bel\u00edssimo e infind\u00e1vel tapete: sua obra, que nunca estar\u00e1 conclu\u00edda, \u00e9 constitu\u00edda de diversas linhas que se entrela\u00e7am e se emaranham, tal como no conceito de entrela\u00e7amento qu\u00e2ntico, no qual o estado qu\u00e2ntico de dois objetos, s\u00f3 podem ser descritos globalmente, sem separar um objeto do outro, mesmo que estejam separados espacialmente. Este tecel\u00e3o, a quem os conceitos de linha e de cont\u00ednuo s\u00e3o t\u00e3o caros, n\u00e3o trabalha com linhas materiais. Engana-se quem v\u00ea a linha cont\u00ednua dos desenhos como um atrativo pl\u00e1stico. Aquilo \u00e9 a isca que, ao nos fisgar, nos prende no anzol da sedu\u00e7\u00e3o, na sua inexor\u00e1vel beleza, t\u00e3o inteligente e atual. Corpos que se separam, se unem, e se reencontram nas genit\u00e1lias. Bem antes do desenho; antes de tudo, o artista tece com linhas de ideias da psican\u00e1lise, da f\u00edsica, da matem\u00e1tica e da filosofia; seu tapete se deixa banhar e tingir pela filosofia, pela literatura e pela poesia. Tunga, V\u00ea-nus, 1976 Foto Doug Baz, 1997 [Bard College Museum of New York\/Website Tunga] Uma linha, por exemplo, aquela da teoria do sujeito, a ilus\u00e3o que somos inteiros, que nos separamos de nosso corpo fr\u00e1gil e feito aos peda\u00e7os, que enche de j\u00fabilo e vai habitar nosso imagin\u00e1rio, quando, com alguns meses de idade, somos colocados diante de um espelho, \u00e9 desmantelada nesse tapete de verdades art\u00edsticas, e \u00e9 costurada nos diversos fragmentos e segmentos de que somos feitos, antes e depois da ilus\u00e3o imagin\u00e1ria da unidade. Como esta linha vem sendo explorada desde a d\u00e9cada de 1970 por Tunga? Lembram-se de V\u00ea-nus, 1976? Sobre uma superf\u00edcie de borracha foi dada uma perversa dentada. Aquele que mordeu n\u00e3o tinha ou havia perdido todos os dentes da arcada superior; seus dentes arredondados da arcada inferior deixaram sua marca. A escultura n\u00e3o deixa restos como os m\u00e1rmores de Leonardo ou Michelangelo; os restos s\u00e3o partes da obra e, nesse sentido, tem muito mais da totalidade que as representa\u00e7\u00f5es totalizadoras da figura humana. A coisa mordida \u00e9 a escultura bem como o que restou da carne de borracha. O resto, n\u00e3o \u00e9 o resto, \u00e9 parte integrada pelas articula\u00e7\u00f5es de fios, grampos e pela luz incandescente que os unificam numa sombra. Est\u00e1 l\u00e1, na parede. O inteiro, a totalidade, a borracha presa e amarrada na parede \u00e0s suas partes, e iluminada pelos fios que descem dela mesmo, suas luzes e \u2013 n\u00e3o esque\u00e7amos \u2013 as sombras. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 uma V\u00eanus de nosso tempo? Tunga, L\u00e9zard, 1989 Foto James Prinz [Contemporary Art Museum of Chicago\/Website Tunga] Se nos determos em L\u00e9zard, 1989, apresentado pela primeira vez no mesmo ano, no Museum of Contemporary Art \/ Chicago e, no ano seguinte, na Whitechapel, em Londres, hoje, presente em Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais, Brasil, veremos todas essas quest\u00f5es postas em a\u00e7\u00e3o, e mais uma, o narcisismo. N\u00e3o aquele secund\u00e1rio, psic\u00f3tico, que investe toda sua libido no ego, e nada resta para o objeto. Aqui estamos diante de um corpo que exercita o narcisismo prim\u00e1rio, aquele que todo dia nos ergue, nos, levanta, e nos prepara para um novo dia, esse monstro vivo, como foi chamado pelo cr\u00edtico Joseph Williams (1), em 1990, \u00e9 nosso retrato atual, com suas placas de a\u00e7o, seus im\u00e3s, suas tran\u00e7as, cabelos e pentes. \u00c9 nosso esqueleto nas placas met\u00e1licas, nosso sangue s\u00f3lido no magnetismo agregador, nossa imagem e, sobretudo, n\u00e3o pensem que os pentes n\u00e3o fazem parte de nosso corpo. O que seria de n\u00f3s, todo dia, sem os pentes, que separa e d\u00e1 individualidade aos fios de nossos cabelos? E o que \u00e9 o pente, sen\u00e3o a coisa que separa o coletivo, para restituir o indiv\u00edduo? E s\u00e3o tantos os pentes, mas milhares de mais os cabelos que juntos, s\u00e3o cabeleira, belos cabelos, mas constitu\u00eddos fios a fios, indiv\u00edduos juntos s\u00e3o um corpo lindo; separados, t\u00eam outra beleza, eles se juntam e o pente os separa. S\u00e3o sempre o uno e a totalidade em bel\u00edssimas esculturas. E o cabelo, como as unhas, s\u00e3o as \u00fanicas coisas vis\u00edveis em nosso corpo que tendem para o infinito, at\u00e9 \u00e0 morte, e mesmo depois n\u00e3o cessam de crescer, por algum tempo. Mas a esse imenso cont\u00ednuo no tempo, constru\u00eddo por fragmentos, peda\u00e7os, figuras, antecedeu uma interessante investiga\u00e7\u00e3o que culmina na explora\u00e7\u00e3o do cont\u00ednuo na figura da superf\u00edcie topol\u00f3gica do toro. Tunga, \u201cP\u00e1lpebras\u201d, Galeria C\u00e2ndido Mendes, 1979 Foto divulga\u00e7\u00e3o [Website Tunga] Antes, em 1979, na exposi\u00e7\u00e3o P\u00e1lpebras (pe\u00e7o desculpas pela longa descri\u00e7\u00e3o, mas poucos viram a exposi\u00e7\u00e3o), no Centro Cultural Candido Mendes, ainda no antigo pr\u00e9dio do cinema Pax (hoje, n\u00e3o mais existente), em Ipanema, Tunga explorou o espa\u00e7o de uma ampla sala para coloc\u00e1-la na extrema penumbra. Mas para acess\u00e1-la, passava-se por um corredor que estava coberto por uma esp\u00e9cie de papel de parede que s\u00f3 reproduzia moscas, milhares de moscas impressas pretas sobre branco at\u00e9 a porta de vidro, antes de entrar no espa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o; na verdade, j\u00e1 est\u00e1vamos na exposi\u00e7\u00e3o. Ali estavam expostos extremos que se encontram,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1010,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[30],"tags":[29,28,27],"class_list":["post-88","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-contemporanea","tag-artista","tag-instalacao","tag-teoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1082,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88\/revisions\/1082"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1010"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/liartecontemporanea.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}