A poética da artista visual Lilian Morais, que elabora com diversas técnicas sua indignação na perspectiva de transformações sociais
Por LUIZ FREIRE
Doutor em História da Arte, professor da Escola de Belas Artes (UFBA) e museólogo.
No carnaval de 2026, em Salvador, a artista Lilian Morais irrompeu entre os foliões do bloco Mudança do Garcia vestida de Catrina, uma personagem da cultura mexicana que representa um esqueleto de mulher elegante, símbolo do Dia dos Mortos, segurando nos braços um corpo feminino confeccionado com travesseiros e enrolado em lençóis, com os braços e cabelos (peruca) à mostra. Fez todo o trajeto do bloco, do fim de linha do Garcia ao Campo Grande, provocando as reações mais variadas.
Lilian narrou que grupos de mulheres entendiam como uma fantasia, riam, outras perguntavam do que se tratava e compreendiam logo que era uma performance, denúncia sobre o feminicídio diário e toda sorte de agressões cometidas pelos homens contra as mulheres. Já os homens mais velhos, acima dos 45 anos, xingavam, chamavam-na de vagabunda, e um homem em especial ficou tão incomodado que ameaçou chamar a polícia para retirá-la do circuito, alegando que ali era um lugar de divertimento. Sumia e voltava agressivo, a ponto de as amigas que lhe acompanhavam aconselharem que pedisse ajuda à polícia, até que deu por finda a manifestação, na altura do Campo Grande.
Em contexto diferente, a performance foi repetida, desta feita sem a caracterização de Catrina. A artista se apresentou sem maquiagem nas comemorações do dia 28 de março, Dia Internacional da Mulher, e dia de seu aniversário, na orla da Barra, em Salvador. Surpreendeu o público, majoritariamente feminino, e afirmou ter sido muito emocionante: “Choramos muitas vezes”.
Praticamente a mesma performance provocou reações diferentes, condizentes com as circunstâncias em que foram realizadas. No bloco da Mudança do Garcia, apesar de ser politicamente contestatório, reúne homens e mulheres de várias classes sociais, predominantemente de uma faixa etária impregnada de cultura machista, a mesma que condena mulheres à morte no Brasil.
Aos 58 anos de idade, Lilian reconhece que sua marcante incursão na arte foi feita na exposição Eles por elas, em 1997, na Galeria Cinnelle, no Rio Vermelho, em Salvador. “Pintei vários homens nus, colocando seus corpos em posições às quais nós, mulheres, fomos expostas secularmente na história da arte, quase sempre pelo olhar de artistas homens”.
Ela declara que sua poética emerge a partir da indignação e os meios para expressar essa indignação são múltiplos, utilizando-se também da técnica da acrílica sobre tela, da escultura em aço e das performances, considerando essa última como a mais apropriada.
Pintou a sua versão da Sala do Trono do Palácio de Queluz, que é o palácio onde D. Pedro I nasceu e morreu, nos arredores de Lisboa, Portugal. No trono inseriu um indígena, assim como aparecem vários indígenas realizando suas atividades diárias na floresta, figuram nas pinturas que decoram a sala. O poder patriarcal, o machismo, o colonizador são representados por meio do padrão “tabuleiro de xadrez” (quadriculado), inspirado no padrão dos revestimentos de pisos nas instituições interditadas às mulheres.
Em Borba Gato pintou o monumento ao bandeirista, caçador de indígenas em meio da floresta com árvores frondosas, com araras coloridas voando; uma delas pousa no braço do colonizador, que é distinguido pelo padrão “tabuleiro de xadrez”. Homens e mulheres indígenas arrodeiam o “caçador de indígenas”, abordando a semelhança do monumento paulista com sua construção apologética, inverídica, contraditória, no papel que exerceu no processo colonizador.
Alguns indígenas tocam flautas, outras dançam e observam a figura de um “indígena azul” criada pelo grafiteiro paulistano Fábio Oliveira, conhecido como Cranio, grafitada no pedestal, sob o qual são reproduzidas capas de jornal e de revista denunciando a destruição das florestas. Na imagem, tempo presente evoca tempo passado, realçando a causa do genocídio e da destruição da natureza, apontando para a relação íntima entre vida indígena e preservação da natureza.
Poucas figuras se distinguem pela policromia forte, dentre elas a arara pousada no braço de Borba Gato, o “índio azul” do pedestal, uma indígena com sua pintura corporal e a capa da revista Época, dominada pelo verde da floresta amazônica. Distinções definidoras da dialética comunicacional da pintura. A metalinguagem se manifesta na reprodução alterada do monumento e na citação do grafite de Cranio, que faz esse contraponto na cidade de São Paulo grafitando figuras do indígena azul nos monumentos polêmicos de São Paulo.



Um aspecto essencial
Recolocar os indígenas em outra posição, lembrar da existência desses povos, de seus problemas causados pela colonização europeia e por seus desdobramentos atuais constituem um aspecto essencial de sua obra. Tais engajamentos foram sendo incorporados no amadurecimento dos estudos e dos seus engajamentos sociais.
“Hoje sou mais disciplinada e minha pesquisa se aprofundou muito. O que começou com a indignação diante do patriarcado foi seguindo por outras questões. Como feminista, entendo que nosso compromisso é com a humanidade, e não apenas com os direitos das mulheres. Acabei me encontrando com as questões ambientais e, quando falamos de meio ambiente, não posso deixar de mencionar os povos originários, que considero guardiões do planeta. A partir daí, fui me deparando com os rastros da colonização e aprofundando cada vez mais minha pesquisa”, afirma a artista.
E explica o seu método de trabalho, salientando que antes produzia de forma mais aleatória.
“Quando fiz uma performance contra a monocultura do eucalipto em Vitória da Conquista, isso mudou a minha maneira de estruturar o trabalho. Comecei a pesquisar determinados assuntos que me deixavam indignada. A partir daí, eu me aprofundava no assunto, começava a rabiscar e a pensar como poderia colocar aquilo para fora. Nas instalações, buscava lugares que tivessem visibilidade, não necessariamente um museu. Era como se eu estivesse colocando para fora tudo aquilo que tinha pesquisado”.
Formada em publicidade e marketing, nasceu em Cajazeiras, Paraíba, permanecendo até os 19 anos. É filha de um caminhoneiro e de uma costureira, uma família de trabalhadores.
Fez cursos de arte no Museu de Arte Moderna (MAM-BA), onde teve vários professores, dos quais destaca Iza Moniz, Edgar Oliva, Ayrson Heráclito, Zu Campos, Caetano Dias e Almandrade. Também fez escola de pintura com Waldo Robatto e estudos de psicologia analítica junguiana, dedicando-se atualmente aos estudos da psicanálise, especialmente Lacan. “Penso que estudar também é uma forma de me analisar e compreender melhor”, argumenta.
Sobre o mercado de arte ele destaca a importância de galeristas para a promoção de seus feitos: “Sempre trabalhei sem pensar no mercado de arte. Paralelamente à arte, tive outros trabalhos. Fiz marketing de varejo, marketing político, publicidade. Trabalhei com muita coisa. Nunca consegui me fixar em uma coisa só, até que um dia, Denise, da Acervo Galeria, me convidou para visitar a galeria. E é assim que estou até hoje no mercado, fazendo o que amo e da forma que quero, publicando, provocando e dizendo o que penso”.
Seus trabalhos requerem a análise do poder de comunicação, da capacidade de tocar o fruidor, o participante da manifestação, as diferentes reações, afinal pretendem estimular a razão dos problemas que nos afligem, cujas soluções demandam mudanças políticas e comportamentais, demandam sensibilidade e empatia, processos não controlados pela artista, mas fortemente ativos nas imagens que produz e nas suas pretensões.
“Espero que minha arte provoque uma transformação, uma consciência política, social e cultural. Não espero necessariamente que todos pensem como eu, mas que a obra provoque alguma pergunta e faça a pessoa olhar para alguma coisa de outra maneira”.



