Análise crítica///

Lilian Morais e a resistência do corpo feminino

Wagner Lacerda: Multiartista e Professor Doutor – EBA/UFBA.

A obra de Lilian Morais constrói uma narrativa visual e performática sobre a resiliência feminina no Nordeste brasileiro. Ao abordar as chamadas “viúvas de maridos vivos”, a artista transforma abandono, ausência e violência estrutural em potência poética e política.

Texturas que evocam o relevo do artesanato popular, figuras atravessadas por padrões geométricos e o uso recorrente do xadrez criam uma simbologia ligada ao patriarcado, às estruturas de controle e à ausência masculina. O contraste entre os tons sóbrios do preto e branco e a intensidade cromática dos vermelhos, amarelos e azuis evidencia a tensão entre opressão e resistência.

Nas performances O Corpo que Lavra, Criminalização da Misoginia e Prisão Perpétua para o Feminicídio, o corpo da artista torna-se espaço de denúncia e memória. A violência contra a mulher, o abandono e a invisibilidade social aparecem não apenas como tema, mas como experiência incorporada.

Em O Corpo que Lavra, o gesto de moldar o barro e lavrar a terra surge como metáfora da mulher que sustenta sozinha a estrutura do lar. A performance foi apresentada na XV Mostra de Performance da EBA/UFBA e posteriormente no Festival do Beju, em Irará (BA), reforçando a relação entre arte, território e expe-

riência coletiva.

A relevância da produção de Lilian Morais está em sua capacidade de articular memória, corpo e crítica social. Sua obra conecta questões locais a debates glo- bais sobre gênero, violência e poder, utilizando pintura, performance, escultura, instalação e fotografia como linguagem de resistência.

Sua produção ultrapassa o campo individual para tornar visível a experiência coletiva de inúmeras mulheres historicamente silenciadas.

Artista visual.
Vive e trabalha em Salvador, Bahia, Brasil.

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